Superman (2025) Nuno Reis, 10 de Agosto de 202511 de Janeiro de 2026 O que é o Super-Homem? No filme “Superman Returns”, o Super-Homem desaparecia por cinco anos. Lois Lane escreveu um artigo entitulado “Porque o mundo precisa do Super-Homem” em que recordava porque ele faz falta. No fundo todos sabemos, mas é importante recordar a diferença que um indivíduo pode fazer. Nos comics o Superman foi fazendo coisas modernas, como renunciar à cidadania americana para ser em cidadão do mundo, não o representante de um país. E também Clark Kent deixou o Daily Planet para se tornar blogger. Sinais dos tempos e de um herói que se tentou adaptar a um mundo em constante evolução. Os anos passaram e na versão de Snyder ouvimos o mesmo na sua forma mais simples. A frase mais memorável do filme foi “Não é um ‘S’. No meu mundo significa esperança”. Esperança. Uma palavra com enorme significado. Kal-El pode ser um meta-humano, mas é também um símbolo. Um símbolo daquilo a que podemos almejar. Podemos nunca chegar a voar ou ter a força dele, mas temos muito mais para dar. Tudo começa pelo simples gesto de defender os fracos. Fazer alguém acreditar que estaremos lá quando for preciso. Dar esperança. Isso é o que significa ser um herói e temos milhares de exemplos, na realidade e na ficção. No entanto o Super-Homem não é apenas um indivíduo. O que o distingue é a trindade. Todos conhecem Kal-El, o ser mais poderoso no planeta. Compete-lhe esmurrar os monstros gigantes, apanhar comboios desgovernados e segurar edifícios a cair. Como a um herói qualquer. Depois temos Clark Kent. Que deixou a vida pacata do campo para ir para a metrópole onde, sempre ponderado, relata os eventos do mundo. Não é super. É a perspectiva mortal que sabe o que significa ser humano e ter falhas. Prova que cada um de nós pode ser super à sua maneira, mesmo correndo poucos riscos (nunca o vemos perto de onde o Super-Homem está). E depois temos Lois Lane. Seria uma mulher frágil, mas ela ri-se dos preconceitos. Armada apenas com a sua astúcia e uma coragem ímpar, corre para o perigo. Faz as perguntas difíceis e espera pela resposta, mesmo que com uma arma apontada à cabeça. É um símbolo de integridade e a voz da verdade que assustava os maiores criminosos muito antes do alienígena aparecer. E é a única pessoa que mira Kal-El olhos nos olhos como igual. Para fazer uma história em condições, os escritores precisam de perceber que todos os três existem. Algo menos que isso, e será o mesmo que qualquer outro super-herói. Pensemos nos exemplos mais populares. Quando Reeve foi a estrela, ninguém sequer se lembra de Kidder. Na série “Lois & Clark” tivemos os três em equilíbrio. Na série “Smallville” temos um bom equilíbrio entre Kent e Kal-El, mas Lana tem muito mais protagonismo que Lois. No filme “Superman Returns” temos uma Lane decente, não muito activa, mas ainda com presença. Só que Kent desapareceu. Em “Man of Steel” volta a não haver Kent (chegaria mais tarde) e a acutilante Lane do início esvanece ao longo do filme, não voltando a ter relevância como jornalista. A mensagem está lá, mas o foco era nos vários supers que viriam. Na série “SuperGirl” a dicotomia entre Kara e Supergirl existia. A série era apenas uma colectânea de mais meta-humanos, alienígenas e humanos que vestiam o fato para combater e lidavam com a vida dupla. O seu jornalista humano não era Jimmy Osen, que também se torna vigilante. O mais próximo de uma voz honesta é a toda-poderosa Cat que foi arrumada para canto em 80% da série. O novo Superman Que o Universo Cinematográfico DC estava em crise todos sabiam. Más sequelas para Aquaman e Shazam, um Black Adam pouco convincente, um Flash de fugir e um Batman trocado a meio não inspiravam confiança na saga. Puxar um fã como James Gunn para os liderar era obrigatório, mas dar-lhe carta branca para reiniciar aquilo, era arriscado. O que temos aqui não é a clássica história das origens do kriptoniano ou o combate com Zod. Começa a história por onde nunca se viu: uma derrota de Superman. E supera isso trazendo a cena Krypto, o super-cão. Aqui fica uma dica preciosa: qualquer que seja o filme, quando adicionam um cão, ele torna-se a estrela. Por isso Krypto ser canone é muito estranho. E o vilão desconhecido de quem falam vai-se tornar irrelevante. O único vilão a enfrentar é Lex Luthor. Neste filme temos um super-homem convincente. A fazer lembrar muito o anterior. Temos pouco Clark, mas o pouco que aparece é um bom Clark. E temos a melhor Lois que já vimos. É uma jornalista com as perguntas certas, é aguerrida, é mais corajosa que os supers. O filme podia ser só sobre ela. Rachel Brosnahan é uma actriz a sério num filme em que todos são (ou tentam) ter graça. Também Nicholas Hoult é um Luthor como deve ser. Desde Spacey que não se via um génio, eram apenas criminosos ricos. Aqui Luthor tem rasgos de loucura muito adequados a quem está farto da ameaça extra-terrestre, e tem planos maquiavélicos que incluem dizimar populações para enriquecer. O engraçado é que o filme se esforçou bastante nas personagens secundárias. Temos vários colaboradores habituais de Gunn no elenco e nas vozes, mas até as novidades são interessantes. Começaria pela Daily Planet e por Perry White (Wendel Pierce). Tem poucas cenas, mas está no ponto. Na equipa temos um Jimmy que é sempre das personagens mastratadas, mas este surpreende. Todos os outros (Cat incluída) são irreconhecíveis. Eram nomes a mais para um só filme. Depois o Justice Gang com Nathan Fillion igual a ele mesmo, Edi Gathegi como um bom Mr. Terrific, e Isabela Merced pode ter futuro como Hawkgirl se a personagem começar a ter relevância para a história. Mas a melhor personagem foi o Elementor Man (Anthony Carrigan) pelo potencial ilimitado que traz. Seria uma personagem óbvia em televisão e muito arriscada em filme, mas fica a vontade de ver mais dele. Do lado do mal María Gabriela de Faría continua a experimentar poderes como Engineer, mas falha um pouco em inteligência. Deixava ainda uma nota para a nossa Sara Sampaio. Após dois filmes com Daniela Melchior, Gunn volta a apostar no talento nacional e ela deve-se ter divertido imenso. Onde é que o filme falha? Luthor combate contra o Super-Homem. Ainda que em força consiga rivalizar, não faz sentido que tenha melhor tempo de resposta que o kryptoniano. Assim que percebemos o que se está a passar, deixa de fazer sentido. De resto é o que foi dito antes. Este filme não era o que estavamos à espera. É uma comédia de Gunn com um elenco vastíssimo que talvez faça sentido combinando com os próximos filmes (“Supergirl” já em 2026). Arrasou o universo existente e entrou em exageros sem se ter distanciado assim tanto das temáticas da concorrência. Daqui a uns anos veremos se funcionou. 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