The Baltimorons Nuno Reis, 4 de Novembro de 20254 de Novembro de 2025 Ainda no território dos filmes de Natal fora do comum, “The Baltimorons” é algo certamente inesperado. O título óbvio pode parecer que tem humor fácil, mas este é um dos mais complexos argumentos que se pode ter numa comédia simples. A história acompanha Cliff, um homem com três grande problemas. O primeiro é ser um alcoólico em recuperação. No Natal a tentação é grande. O segundo vício é pior. Ele fazia e continua tentado a fazer comédia de improviso. O terceiro problema é que acabou de partir um dente e não é fácil arranjar um dentista na véspera de Naral. Após várias chamadas, consegue ser atendido por Didi, uma dentista de meia idade cujo Natal também não está a ser perfeito. Podiam ser dois estranhos em Baltimore, num dia em que todos correm. Uma série de eventos que lhes vão acontecendo faz com que se aproximem e acabem por ter uma noite memorável. “The Baltimorons” foi escrito a meias por Jay Duplass e Michael Strassner. Os irmãos Duplass são muitos activos, principalmente com curtas, mas Jay é mais conhecido por ter feito parte do elenco de “Transparent”. Já Strassner participou em algumas séries populares e curtas variadas. Esta longa não era um risco. Era uma forma autónoma de expressarem o seu próprio humor. O cartaz era uma prova disso e quase não vi o filme por achar a imagem muito estúpida. Felizmente não tinha muitas alternativas e este acabou por ser escolhido. O início é banal e as situações em que Cliff se mete parecem forçadas. Mas, pouco a pouco, percebemos que essa estranheza é parte da sua natureza. Usa o humor como escape. Só quando lhe começam a acontecer imprevistos que lhe retiram a vontade de rir é que o filme realmente desabrocha. São essas pequenas reviravoltas que tornam a interação com Didi mais profunda, levando-os de uma relação profissional a uma cumplicidade inesperada, marcada por episódios tão cómicos quanto desconcertantes. Noutros momentos, quando os fantasmas de ambos emergem, o filme mergulha num tom mais sério. Essa oscilação entre leveza e carga emocional pode surpreender o espectador, pois a narrativa é construída em pequenos episódios encadeados, sem aviso de mudança de tom. A transição entre comédia e drama é imprevisível. E se a comédia tem altos e baixos, o drama é sempre de qualidade. O melhor do argumento é essa imprevisibilidade: uma comédia que por vezes roça o ridículo, combinada com uma história pungente sobre problemas bem reais. E se Michael Strassner está perfeito no papel e Liz Larsen convence, quando temos Olivia Luccardi em cena não há palavras. As suas emoções são o melhor do filme. Pelo telefone está apagada, mas quando surge em pessoa, rouba o protagonismo. Diz o que pensamos e revela pequenos detalhes sobre Cliff tão credíveis que só podem vir de pessoas verdadeiras. É um filme sobre pessoas normais, com problemas normais. Há exageros, sim, mas sempre dentro do razoável. Baltimorons é ideal para refletir sobre a época natalícia e sobre o que realmente importa — um lembrete de que, por vezes, os encontros mais improváveis são os que nos fazem recuperar a humanidade. Filmes Filmes 2025 Auto-descobertaDentistafamíliaNatalNuno ReisSuicídio