The Bulldogs Nuno Reis, 21 de Fevereiro de 202621 de Fevereiro de 2026 Como recuperar de uma tragédia que todos minimizam? As tragédias fazem parte da vida. Por muito que nos preparemos e façamos tudo para estar seguros, há sempre imprevistos. Como um comboios descarrilar à porta dspejando produtos químicos perigosos que, para minimizar os danos, decidem queimar imediatamente. Fez este mês três anos, que isso aconteceu na cidade de East Palestine, Ohio. O desastre esteve nas notícias um pouco por todo o mundo. Um comboio descarrilou libertando quinhentos quilos de cloreto de vinilo. A solução imediata foi queimar. O que produz fosgénio, uma arma química cancerígena banida logo após a Grande Guerra. Todos dizem que é seguro, mas será boa ideia confiar? Bulldogs é a alcunha da equipa da escola. Por ser uma terra pequena, andaram todos na mesma escola. São todos bulldogs desde pequenos e vestem a camisola com orgulho. Faz parte da sua identidade comunitária. Este documentário fez o que muita gente não fez: foi lá. Durante meses depois do acidente, entrevistou vários habitantes. Um estudante do secundário com os olhos postos no futuro. Uma cabeleireira a pensar em reduzir o horário para passar tempo com o neto que vem a caminho. Um quiroprático com aspirações de tratar uma capital de gente sem espinha dorsal. Um homem consciente da idade que tem e dos benefícios da idade. E uma mãe que teve de se mudar por ser o mais seguro para as crianças. Talvez haja mais. Estes foram os marcantes. Alterna isso com excertos das notícias para mostrar como o país via o evento. Em especial as visitas de maior mediatismo como o governador DeVine, o senador Vance, o ex-presidente Trump, o secretário de infraestruturas Buttigieg e, um ano depois, o presidente Biden. O filme não toma posições políticas, apenas transmite a opinião das pessoas na rua. A EPA (agência ambiental) diz que é seguro beber a água, mas basta mexer nas pedras do rio que a contaminação sobe à superfície. Isso nos sítios em que a água está transparente, pois noutros nem parece água. O filme também não faz análises ou apresenta estudos. Apenas quer mostrar como é viver com este evento na memória. Com o medo de as autoridades não estarem a pensar neles e mentirem para evitarem problemas maiores. Não querem ser a nova Flint. O documentário tem uma fotografia impecável e um trabalho de câmara que normalmente só a ficção consegue. Apostou em cores de contrastes fortes, mas que funcionam. Marcam quem assiste. E tem o dom de mostrar pequenos momentos do dia a dia, como limpar os instrumentos musicais, cortar o cabelo, planear a construção de uma casa ou apenas repousar na cadeira de baloiço. Porque a vida deles continua. Tem de continuar. Mas não esquecem o que lhes é devido e não perdoam. Uma frase interessante que referem é que este acidente mudou a forma de pensar. Estão assustados e podem ficar mais unidos ou mais distantes, mas tudo mudou. Ainda mais que na pandemia. Nunca mais serão apenas East Palestine. Agora são aqueles que foram abandonados à mercê do destino. Que continuam a lutar e que não deixarão esquecer. Porque os problemas maiores podem surgir daqui a dez ou vinte anos. E então, quem ainda se lembrará? Filmes Filmes 2026 ApocalipseComboioCrise PolíticaNuno Reis