The Carpenter’s Son Nuno Reis, 3 de Janeiro de 202614 de Janeiro de 2026 Todos os anos surgem vários filmes estranhos. Normalmente Nicolas Cage está envolvido em algum deles. E desta vez foi de propósito, pois aparentemente Robert Eggers terá comentado que não via Cage como adequado aos seus filmes e o actor lançou um apelo para lhe arranjarem um argumento estilo Eggers – que sabemos bem o que significa – para provar que era capaz. O resultado foi um filme que gerou tanto desconforto que teve de mudar de continente para poder ser rodado. É isso “The Carpenter’s Son”. A culpa não é só de Nicolas Cage. Podemos recuar até ao Imperador Constantino I que organizou o Concílio de Niceia. Nessa conferência foram escolhidos os evangelhos canónicos e outros foram considerados apócrifos. Enquanto a fé cristã se focou nos canónicos – o Novo Testamento assenta neles – os apócrifos foram condenados à sombra. Não foram esquecidos, foram vistos como imperfeitos, ou indesejados. E claro que surgem sempre teorias que seriam portadores de histórias menos lisonjeiras que devem ser exploradas. Como o famoso Cecil B. DeMille dizia, “Give me any two pages of the Bible and I’ll give you a picture”. Se toda a Bíblia foi já adaptada inúmeras vezes, restava pegar nessas histórias. E como todos sabe, o primeiro tema é a vida de Jesus entre os 12 e os 30 que decerto teve os seus momentos relevantes. Contudo, aqui não há nomes. Pode ser um Jesus ou um Brian. Temos uma mãe, um pai carpinteiro, e um rapaz que nasceu numa momento complicado em que matavam todos os bebés masculinos. E por isso a família fugiu. Viviam quase como nómadas, o pai ia fazendo biscates, esculpindo estátuas pagãs. E o filho, ia explorando o mundo com a curiosidade adolescente. Mas, e citando outro clássico, o pecado mora ao lado. Terá esta criança força moral para os desafios? É um filme que sabia onde se estava a meter. Num território deserto, com pedras, pó e alguns animais, onde a vida é difícil e a morte espreita a cada esquina. A criança parece relativamente normal, o espectador é que anseia para ver água tornada em vinho ou algo assim, mas a única cena com algo de invulgar é com um leproso. Para onde foi levado pela misteriosa jovem que teima eu o fazer seguir por maus caminhos. Aqui devo dizer que a escolha de Isla Johnston (a jovem Beth em “Queen’s Gambit”) foi perfeita. Tem um ar maquiavélico que nos faz pensar constantemente que seja o diabo disfarçado. No resto do elenco temos Cage a conter a habitual raiva, temos uma FKA twigs que começa bem, mas depressa deixamos de perceber o que traz para a história. E Noah Jupe, escolhido a dedo por Cage que tentava há anos trabalhar com ele, que aguenta o filme com o ar banal de quem não é ninguém, mas que os pais mantêm escondido do mundo e alguns tresloucados gritam que é o salvador. Não era fácil. O filme acusa isso, entrando por alguns minutos numa narrativa sem rumo, mas para o fim lá consegue recuperar e dar-nos algum terror de inspiração bíblica com quase tudo a que tínhamos direito. Tinha as peças certas, uma história minimamente interessante e actores capazes. O realizador aguenta a média produção sem acusar a inexperiência (exceptuando um documentário com Lupita Nyong’o há quase dez anos, não tinha trabalhado com estrelas de grande calibre). Tem ainda alguns pontos pela ousadia. Não vai tão longe como os críticos receavam, mas pode abrir as portas para outros que queiram fazer o mesmo. Hoje em dia, não será memorável. Nos anos 90 teria sido um sucesso. Filmes Filmes 2025 BíbliafamíliaNuno Reisreligião