Dæn sap (2024) Nuno Reis, 22 de Setembro de 202415 de Janeiro de 2026 Em todas as edições do MOTELx, a minha prioridade está nos filmes asiáticos pois – exceptuando se forem Japão e Coreia do Sul – dificilmente os verei noutro sítio. Este ano foi-nos dada enorme variedade, mas o conto da terra assombrada era o mais estranho e portanto o mais apelativo. Apesar de a indústria já estar a chegar ao nível a que nos acostumamos, ainda tem muitas histórias únicas para contar. Esta é uma delas. O filme desenrola-se a dois tempos. No passado, é sobre uns homens que almejaram uma vida próspera. No presente acompanha Mit que, após a morte da mulher, se muda com a filha May para uma mansão envelhecida nos subúrbios de Bangkok para o seu novo trabalho de capataz na fábrica local. Na muito necessária limpeza profunda à propriedade, Mit remove alguns talismãs que não deveria e situações estranhas começam a acontecer. Será o funcionário da fábrica que está a mandar sinais de descontentamento à nova figura de autoridade, ou haverá mesmo um djinn centenário a fazer das suas? O mais interessante é que a Tailândia é um país de maioria budista e esta mudança é para um bairro muçulmano. May integra-se bem e está receptiva à cultura e às tradições da vizinhança, Mit não entra propriamente em confronto ou desrespeito além dos talismãs, mas há alguma desconfiança e repúdio das tradições mais extremas. Para os espectadores ocidentais há muito a absorver. As duas personagens com vidas tão opostas gerem a criação da famosa “atmosfera” com extremo cuidado. O filme define tudo o que precisa e constrói o conflito com mestria. Só que não bastam esses desenrolares para a história ficar completa. Como espectadores vamos ver a origem da lenda que os assombra, e ficar mais informados que todas as personagens. Todos os flashbacks acabam por consumir bastante da paciência inicial – o filme tem mais de duas horas – mas no fim fará sentido. Isso e as teorias alternativas para o que se passa. Porque mau-olhado é uma opção tão rebuscada, que todas as alternativas parecem melhores e as provas disso fazem muito sentido. Um excelente trabalho da dupla de argumentistas e realizadores Panu Aree e Kong Rithdee que entre fantasmas das lendas e medos da modernidade, nos trazem uma combinação que podia ser cansativa e confusa, mas acaba por ter exactamente o que precisava. Temos uma amostra das tradições, da cultura mais transversal e da minoritária, do que o país era e do que se está a tornar (sem embelezamentos). Era só ser um pouco mais curto. Filmes Filmes 2024 Casa assombradaFantasmasMOTELx 2024Nuno Reis