The French Italian Nuno Reis, 20 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 Quem gostar dos vizinhos, que atire a primeira pedra Uma das coisas mais certas na vida, é que teremos problemas com os vizinhos. O facto de haver alguém próximo que sabe imenso sobre fragmentos da nossa vida, sem saber os detalhes do porquê, faz com que tenhamos a suspeita que viram o pior de nós, sem conhecer o nosso verdadeiro ser. Da mesma forma que também os julgamos pelo pouco que se ouve através das paredes ou pelo horário a que levam o lixo ou o cão a passear. Não sabemos nada, assumimos tudo. Mas nós, claro que fazemos isso bem. Eles é que não nos entendem. E quando chega o momento de falar, todos vão de pé atrás e acabam por mostrar o pior de si, acentuando essa imagem. Isso não acontecia antes, quando todos ficavam a morar perto do local de nascimento e conheciam os vizinhos desde sempre. Com as novas dinâmicas de trabalho cada vez nos movemos para mais longe. Cada vez ficamos por menos tempo numa casa. Não ganhamos raízes e não criamos ligações duradouras com as pessoas reais mais próximas de nós. Não queremos compreender e portanto não aceitamos as diferenças. Este filme quer-se focar precisamente no quão longe pode chegar a curiosidade e a malvadez entre vizinhos. Mas não se fiem na tagline oficial. Isto não é uma série de partidas entre vizinhos. É um casal a elaborar uma pequena artimanha para saberem mais sobre os vizinhos. Começam a dedicar a sua vida a uma vingança fútil, e acabam em busca de um sonho que não tinham e que não deviam ter. Isto não é um filme para todos os públicos, mas adequa-se muito bem aos visados. Nova-iorquinos de classe média e vidas confortáveis que se preocupam demasiado e têm tempo para desperdiçar. É um auto-retrato muito fácil de reconhecer. O casal principal Doug e Val (Aristotle Athari e Catherine Cohen) tem graça e química. Cohen é um dos grandes talentos da comédia americana contemporânea e esta é uma oportunidade de a ver num papel diferente. Já Athari, que eu tinha a obrigação de reconhecer pelo que fez em SNL (curta estadia) está muito contido. Ao início não os distingo de outros casais genéricos em filmes independentes, mas o desenvolvimento das personagens tem detalhes deliciosos. Sendo a melhor parte a cumplicidade sem limites. Não completam as frases um do outro, mas estão em sintonia e apoiam-se mutuamente. Parecem mesmo feitos um para o outro. Claro que também escalam a sua curiosidade até um evento público e nenhum alguma vez tenta travar este descarrilamento anunciado, mas quem pode criticar? Deixem a vossa cara metade sonhar, em especial quando é um sonho partilhado. Chloe Cherry como a actriz tem uma personagem estereotipada e sem grande margem para brilhar, mas é desprezível que chegue como elemento da sua geração. A grande lufada de ar fresco é Wendy (Ruby McCollister) que como especialista na arte da representação lhes vai facilitando a entrada no meio, arranjando o espaço, as pessoas, e validando tudo o que fazem. E é o único elemento óbvio de loucura que vemos entre gente que se acha normal. As suas aparições trazem um humor mais acessível ao público e alimentam as ilusões de grandeza do casal. “The French Italian” tem ainda alguns cameos interessantes (dos quais só reconheci Sunita Mani) mas que vão trazendo detalhes da realidade para a ilusão em que vivem. Um lembrete que eles estão apenas a divagar sem controlo. É um filme competente que permite passar bons momentos. Dá para ver como romance para pessoas que estão em simbiose, como preparação para reunião de condomínio, ou apenas como distração. (o filme chega no fim do mès às plataformas de streaming) Filmes Filmes 2024 Nuno Reisplano falhadoTeatroVingançaVizinhos