The Glassworker Nuno Reis, 28 de Novembro de 202428 de Novembro de 2025 “Não se aprende nada a fazer copos.” Esta simples frase marca o momento no filme em que se torna óbvio que há uma componente artística tremenda. Todos sabemos que para fazer vidro é preciso fogo, água e areia. Mas isso é o básico. Para ir além dos copos, é preciso muito mais. Mais materiais. Mais técnica. Mais conhecimento. Soprar vidro pode ser fácil, mas tornar a areia em algo inesquecível é uma arte. É esse enorme detalhe que define todo o filme. Enquanto a animação de torna cada vez mais computadorizada e a IA ameaça fazer filmes inteiros sem intervenção humana, chega-nos do Paquistão uma animação feita à mão. Por isso foge ao que associamos à animação ocidental, e vai beber muito ao estilo Ghibli. Neste filme acompanhamos duas crianças. Vincent trabalha com o pai na oficina de vidro criada pela família há gerações. Alliz é uma violinista talentosa que chega à cidade. São grandes amigos ainda que haja tensão entre as famílias. Oliver, o pai de Vicent, é um pacifista e o de Alliz é um Coronel. O país está em guerra e a sua cidade está segura, mas sob enorme pressão. As suas artes tornam-se o seu porto seguro num mundo que se prepara para a destruição e o fim de tudo o que é belo. Vincent já fez sacrifícios pela sua arte. Destruir algo bom para ter material para fazer algo melhor. Por isso Vincent diz a Alliz que fazer arte não é só interpretar música, mas compôr. Ela tem de criar algo novo. E é isso que ela faz assim que começa a sentir a perda e a destruição. O início parece parado pois dedica-se às pequenas coisas. As mãos que trabalham o vidro. O vento nas árvores. O pequeno Djinn que brinca nas ondas. Ajuda a definir alguma identidade própria do filme, mas principalmente a colocar o espectador no estado de espírito certo. A abrandar e a apreciar as pequenas coisas. Depois de estarmos ambientados ao mundo das crianças, eles vão envelhecendo. Crescem moldados pelo mundo e por pais de visões fortes. Educações contraditórias, mas que não os impedem de se estimarem. E de amarem a arte através das dificuldades. O filme ganha outro ritmo e acelera rumo a um desfecho. Quanto mais velhos, mais rápido o filme. “The Glassworker” é uma obra rara. Não tenta deslumbrar com acção e espetáculo. Quer apenas tocar com uma mensagem. Contra a guerra, mas também pela arte e pelas crianças. Para que se proteja o que é frágil. E ainda que a arte em vidro seja fácil de criar em animação, a música composta para o filme é também sublime. Incrível arranque para a animação paquistanesa. Filmes Filmes 2024 GuerraNuno ReisSitges 2024Vidro