The History of Sound Nuno Reis, 21 de Dezembro de 202529 de Dezembro de 2025 Lionel era uma criança normal no meio do Kentucky. Costumava cantar com o pai e a professora descobriu que o miúdo tinha talento. Conseguiu que ele fosse estudar com bolsa para o Conservatório de Boston. Aí vai ouvir uma música familiar e começar a conversar com David White, outro estudante de música. A Grande Guerra leva David para a Europa, mas ele volta e vai desafiar Lionel a irem numa viagem pelo Maine para recolherem músicas. Quando Josh O’Connor referiu “History of Sound” no monólogo do SNL, brincou que só o chamavam para filmes homoeróticos. Ao início até passa essa impressão, mas depressa muda. A relação entre eles pode ser amorosa, mas é mais do que isso. São amantes, mas são acima de tudo amantes de música. Esta viagem não vai ser para se conhecerem, mas vai ser para se atualizarem. Para retomarem contacto. Para versões mais adultas dos homens que se conheciam, verem as diferenças que surgiram nesse par de anos afastados e decidirem como será o futuro. O filme é uma enorme exibição de Paul Mescal. Na primeira metade acompanhado por O’Connor, na segunda sozinho. Em ambas a transmitir dor com o olhar, em constante dúvida sobre as suas escolhas e o sentido da vida. Sempre em busca da felicidade que sentiu a viagem com David em busca de novas músicas. “The History of Sound” é um conjunto de três temas. A homossexualidade está sempre latente e define as personagens, assim como alguns dos rumos que tomam, mas não é o principal. A busca pelas canções populares é maravilhosa. São canções simples e pessoas sem treino mas estão cheias de emoção e história. Mesmo quem não é americano terá algo a aprender nas canções. É um estudo antropológico de qualidade, sem nunca condicionar a narrativa. Podia ser feito com qualquer outro conjunto de músicas pois as letras em si nada fazem. É o estado de espírito induzido por elas que é usado do filme. É a busca pelas músicas que é a parte importante. Que dá nome ao filme. E Oliver Hermanus soube fazer um filme sobre música, sobre pessoas, sobre o passado com olhos no futuro. Mas há ainda uma terceira parte que é fundamental discutir. Passará despercebida a muita gente, mas foi aquela em que mais pensei durante o visionamento: o efeito borboleta. Como as pequenas coisas definiram o rumo. Lionel tinha uma voz maravilhosa. Os pais incentivaram-no. A professora gabou-o. David deu-lhe um propósito. Tudo isso definiu o seu futuro. O seu propósito. Saiu de uma quinta no meio do nada para concertos pela Europa. Também podemos ver de outra forma. Terá sido o amor que definiu o rumo de Lionel? Quantos de nós por amor ou paixoneta enveredamos por algo que se tornou a nossa causa de vida? Na verdade, se a relação começou por causa de um gosto comum pela arte, pode não ter sido o coração a ditar o destino final, mas apenas um acelerador. É um filme visualmente incrível, com uma banda sonora poderosa e que tem um argumento muito bem trabalhado. É um poeta em formato de cinema. Vê-lo é toda uma experiência (e isso inclui ouvir os créditos) pelo que o ecrã gigante e um incrível sistema de som é o melhor formato. Mas isso não impede que se reveja várias vezes ao longo dos anos. Filmes Filmes 2025 HomossexualidadeMúsicaNuno ReisPrimeira Guerra Mundial