Läif a Séil Nuno Reis, 19 de Setembro de 202423 de Outubro de 2025 Apesar da fé na humanidade ser o recurso que mais depressa se esgota nos tempos presentes, não é preciso recuar muito no tempo para uma era em que o semelhante era muito mal tratado. Este filme apesar de poder ser catalogado num sub-género específico – e não estar errado – tem várias camadas que merecem análise profunda. Apesar de não serem spoilers, este mergulho em diferentes etapas do filme pode dar demasiada informação. Luxemburgo, meados do século XIX. A fome lastrava pela terra e as pessoas ou viviam em comunidades fechadas com produção suficiente e um pequeno exército que as protegesse, ou se tornavam nómadas numa busca de alimento ou trabalho. A história começa numa dessas pequenas comunidades quando encontram uma família esfomeada. O poder e impunidade eram tais que o que lhes parece natural é algo que enoja os espectadores do século XXI. Isso define o contexto moral para o filme. Somos atirados abruptamente para uma realidade inimaginável e tudo o que vai acontecer a seguir é consequência das leis dessa sociedade anormal. Alguns anos depois, o Luxemburgo começa a formar-se. Fartos de serem um fantoche nos confrontos políticos entre Países Baixos, Bélgica, França e Prússia, impôs a necessidade de uma identidade nacional forte. Essa pequenas coutadas eram um problema, e a sua população seria uma grande ajuda nos esforços de criação de um exército nacional para os confrontos que se avizinhavam. Todavia, a mesma família que nos chocou no início do filme, não tem interesse em perder a autonomia e impunidade e estão preparados para se oporem a um exército. E a grande ironia é que eles têm outro inimigo. Alguém que não quer saber dos interesses nacionais e tem determinação para os eliminar por simples vingança. O realizador Loïc Tanson tem uma carreira muito curta, mas uma visão clara do que queria fazer. O choque inicial define a voz. Vai reforçando a violência gratuita com algumas mortes. Para evitar os truques clássicos do rape and revenge cai em alguns clichés mais próximos do western. A mistura é estranha. O filme torna-se desnecessariamente longo em alguns capítulos. Mas ao mesmo tempo, as opções artísticas dão um inesperado fôlego e é muito cativante. Não é um filme agradável de ver, ou sequer que pense em rever. Mas algumas das cenas são visualmente fortes e a mente consegue tornar tudo tão chocante como era a intenção de quem as escreveu. Diria que apreciadores de cinema, ou estudantes do mesmo, lhe deveriam dar uma oportunidade. Não só o filme tem uma parte artística fora do comum, como encontrou um lugar para si no cruzamento de géneros. E hoje em dia, isso é tudo o que alguém que queira ser original pode fazer. Não garanto é que não cause alguns pesadelos. Filmes Filmes 2023 HistóricoMOTELx 2024Mulher forteNuno ReisVingança