The Plague Nuno Reis, 18 de Novembro de 202518 de Novembro de 2025 Por muito que goste de livros e filmes sobre reconstruir a civilizações em ilhas ou planetas perdidos, nunca consegui gostar de “Lord of the Flies”. Era toda a crueldade social de “Animal Farm” aplicada a pessoas. Era o fim da humanidade e dos sonhos em indivíduos que ainda deviam acreditar que o futuro será melhor. Não sou daquelas pessoas que abomina o terror quando as crianças são vítimas (basta verem a minha mais recente produção), mas acho muito desconfortável quando são o agressor. E “The Plague” vem tocar em muitos pontos sensíveis. Ben ia passar uns dias num campo de férias centro de alta performance para pólo aquático. Uns dias com crianças da sua idade, sem pais, e muitas horas na piscina é o ideal para o Verão. Só que depressa Bem percebe que algo se passa.A equipa diverte-se com a ostracização de Eli, um menino com um problema de pele. Dizem que ele tem “a Peste” e evitam-no, lavam-se com vigor sempre que o tocam. Eli já não lhes liga, vive no seu próprio mundo, mas Ben fica perturbado com isso. Jake vê aí uma oportunidade e começa o bullying sobre Bem para impor o seu domínio. Incapaz de responder à altura, Bem começa a ser posto de lado. E o poder da sugestão faz com que comece a notar alguns sinais de que pode ter apanhado a peste. Aqui existem claramente dois filmes. Um é dentro de água. A câmara e a música fazem dessas cenas obras de arte. As crianças divertem-se e agem em equipa, como um só. Tudo insinua filme de terror ainda que transmita segurança. Fora de água é outra história. Um filme em fogo lento, em que vemos a construção de uma relação disfuncional com pequenos gestos e comentários que passam despercebidos. Um mundo à parte sem supervisão dos adultos, onde estes pré-adolescentes são livres para entrarem na puberdade com toda a estupidez hormonal. É esse segundo filme que me perturba. Demasiado real nos diálogos e nas interpretações de Everett Blunck (Eli) e Kayo Martin (Jake). Mais do que ser credível, é plausível. O filme passa-se no início do século para justificar este seu isolamento parcial do mundo numa era sem smartphones. Hoje em dia a consciencialização para o bullying é um tema muito mais presente. Ainda assim, esta pequena tortura facilmente teria passado despercebida. A crueldade infantil é tão ardilosa como perversa. Ben está numa fase em que tem muito a aprender e tenta ser como os seus semelhantes, mas por ter sido desde cedo uma vítima ou por perceber que é errado, acaba por se isolar. Os outros não sabemos se são resultado da educação, se terão sido também eles vítimas, ou se isto será apenas efeito da manada. Estão a destruir dois seres em idade formativa. É muito fácil um adulto rever-se nessa idade estúpida e sofrer com retroactivos pelo que fez ou deixou que lhe fizessem. Tirando uma conversa que chega tarde e um mergulho quando os dois filmes se cruzam, a participação de Joel Edgerton nada adiciona ao filme. O protagonismo está nas crianças. Alguns críticos tentaram dar sentido às coisas. Comentam que Ben ser vegetariano o torna mais consciente do impacto que temos no mundo. Pode ter sido mania de verão e frase feita. Outros dizem que Jake é assim por ser orfão. Eu assumi que quando ele diz que a mãe morreu fosse para cortar o ataque que lhe estava a ser feito. Os outros eram iguais a ele e de certeza que algum teria mãe. É um filme que deixa vários pontos abertos a interpretação e quer forçar a reflexão e a recordação. Principalmente alertar que não sabemos tudo que os pequenos aprendem e como são longe de nós. Com dezenas de filmes de terror vistos este ano, este drama é o mais provável de me causar pesadelos. Filmes Filmes 2025 DesportodoençaEquipaNuno ReisSitges 2025tortura