The Summer Book Nuno Reis, 1 de Novembro de 202531 de Outubro de 2025 Em 1972 Tove Jansson publicou um romance chamado “The Summer Book”. Uma obra quase filosófica sobre uma menina de seis anos que perdeu a mãe. Nesse livro uma rapariga e a avó estão a passar férias numa ilha na Finlândia. O pai também está presente, mas distante. O foco é na relação entre as duas. No ano anterior tinha sido a autora a perder a mãe pelo que todos os pensamentos são bem reais e vindos do coração. O filme foca-se no mesmo tema. Uma profunda reflexão sobre a vida. De um lado a avó, já na fase final. Do outro a neta Sophia, ainda a começar. Na ausência da mãe, a avó faz tudo o que pode para ajudar a pequena em várias facetas. Estar presente. Brincar. Ensinar. Educar. Guiar na ilha e nas emoções ao longo de um verão muito pacato. O pai, meio perdido e num luto solitário, mostra os efeitos da falta da esposa. Sem a avó, Sophia poderia ser uma pessoa sem rumo desde o início da vida. Por isso a avó se estica para estar presente. O filme tem hora e meia, mas pelos padrões atuais esta reflexão deveria durar um minutos. É tudo extremamente pausado. Quem o for ver sem o estado de espírito adequado, vai ficar muito nervoso pela falta de adrenalina. È que já não se fazem filmes assim. Há inclusivamente uma passagem em que a protagonista reza por algo para lhe animar os dias, como uma tempestade ou alguém novo que visite a ilha. Sem esse milagre, está condenada a passeios, conversas e pensamentos. Temos muitas cenas bucólicas, temos longos planos do mar. Em cada momento o tema é a relação intergeracional e como cada uma interpreta a outra. É um longo período para meditação onde mesmo o climax é mais pequeno do que se imaginava. As paisagens não são de ilhas paradisíacas, mas de uma ilha real numa latitude pouco favorável à vida. É tudo real e natural. O filme não é sobre crescer, mas sobre seguir em frente. Sobre olhar para trás e deixar parte de nós nos que ficam. É para quem estiver na recta final da vida e souber o que é a ausência dos nossos avós. Porque a única vitória que se tem na vida é saber que as gerações seguintes vão aproveitar melhor o seu tempo restante. Neste filme não nos vamos lembrar da história, das paisagens, ou de planos, ou de interpretações. Por bom que isso seja, falta a substância para se agarrar em memórias. Mas vamo-nos lembrar do que sentimos. A cada riso de uma criança, saber que estamos a cumprir o nosso papel. Filmes Filmes 2025 avófamíliafériasilhalutomorteNuno Reis