The Surrender Nuno Reis, 29 de Janeiro de 20261 de Fevereiro de 2026 Um muito competente filme de terror estreado em 2025 que passou despercebido foi “The Surrender”. A primeira longa de Julia Max navega por dois territórios ao mesmo tempo: na vertente mais mundana fala da velhice, da doença e da morte; na vertente sobrenatural, vai um pouco mais além. Tudo começa quando Megan regressa a casa dos pais para ajudar com o pai, acamado e em cuidados paliativos. No tempo que passou fora não sabia quão mal ele foi ficando. Ao mesmo tempo que a saúde física do pai se desvanece, a saúde mental da mão como cuidadora vai pelo mesmo caminho. E quando o inevitável acontece, Megan tem de decidir se quer perder ambos os progenitores no mesmo dia ou se vai acompanhar a mãe para um território que mistura fraude e loucura. A primeira cena do filme promete horror. Se aquilo é o aperitivo, o resto pode ser demasiado forte. Subitamente somos atirados para a vida real. Nâo temos criaturas estranhas, só um terror mais mundano e inevitável. Vamos ver como Megan se sente culpada por ter estado ausente e ter chegado demasiado tarde, quando o pai já mal fala. A vida dela do lado de fora não abranda, mas ela na casa da sua infância tem de parar para respirar e pensar. Barbara, a mãe, está mais do que dedicada, está completamente focada nos cuidados. A sua vida gira em torno daquela cama. E está disposta a tudo por mais uns momentos em casal. Mesmo que sejam de dor insuportável. É um segmento muito interessante sobre a velhice e a carga emocional que isso traz para os entes queridos. Um drama muito eficaz. Quando chega o tema de fraude ganha logo outro relevo. Barbara, seja pela dor ou pela idade, não questiona o que lhe dizem e faz causas muito estúpidas. O fantasma de Robert (o pai) aconselha Megan a ficar por perto para vigiar, mas num instante chegam a um ponto demasiado perigoso. E depois outro. E outro. Voltar para trás em qualquer um deles seria deixar a mãe – idosa e mentalmente débil – nas mãos de um vigarista. Isso sim, assusta. Mas claro, depois vamos ter direito a algum terror mais convencional. Momentos muito intensos em que escuridão e som bastariam, mas as criaturas também ajudam. E visto numa sala de cinema bem escurinha será dos pontos altos do ano. Max prova saber o que faz em dois géneros bem diferentes, mas que se complementam. Quem queria um filme de terror pode ficar desapontado pela grande volta que dá até lá chegar. Quem queria o drama se calhar desliga quando o sangue começa a jorrar. Mas quem está confortável (dentro do possível) em ambos, vai ter uma experiência bem completa. Filmes Filmes 2025 doençamorteNuno ReisSegunda oportunidadevelhice