The Ugly Stepsister Nuno Reis, 27 de Agosto de 202525 de Outubro de 2025 Os contos de fadas já não são o que eram. O conto original da Cinderela tem cerca de dois mil anos e foi escrito por Estrabão (sim, o da Geografia). Ao longo dos anos, vários autores famosos no género escreveram a sua própria interpretação da história. Entre eles podemos incluir Basile, Perrault (a mais conhecida), e os irmãos Grimm. Esta versão nórdica é mais próxima da última. Nesta obra de Emilie Blichfeldt, uma realizadora que aqui se estreia nas longas, vamos conhecer Elvira. A heroína da história vive com a mãe e uma irmã mais nova, Alma. Elvira, como adequado à idade, sonha casar com o príncipe, que ainda por cima é um poeta! Quando a mãe se volta a casar, vão viver para casa do padrasto e da sua filha, Agnes. Elvira tenta criar laços com a nova irmã, mas a situação não é a melhor. E como não têm nada em comum, acabam por se distanciar. Esta é a história de como os seus sonhos, a pressão da mãe e todo a sociedade da época, vão fazer com que Elvira se transforme de forma irreconhecível. Primeiro alerta: isto não é um conto infantil. Participou no festival de Neuchatel onde o terror reina. Tem algumas cenas incómodas, outras desagradáveis, e algumas mesmo nojentas. Isto dito por quem está acostumado ao género. Portanto, não levem as criancinhas. Segundo alerta: isto não é um romance sobre príncipes e candidatas a princesas. É sobre como uma adolescente destrói a sua vida tentando ser o que os outros esperam dela. Como toda uma indústria explora os sonhadores para os mudar por fora, e como isso acaba por os destruir por dentro. Portanto, talvez seja para levar as vossas filhas. A geração que canta “Victoria’s Secret” tem aqui a mesma mensagem de forma mais eloquente e chocante. O que temos aqui é alimento para a alma. Elvira é uma personagem de quem é fácil gostar. E Agnes encaixa no estereótipo de beleza altiva que podemos odiar. Mas isto não é uma comédia romântica passada num liceu. Ambas foram obrigadas a crescer. Mas enquanto Agnes abdica do seu sonho, Elvira vive iludida em busca do seu. E se por um lado começamos a gostar de Agnes, não é fácil deixar de gostar de Elvira. De repente entra Alma que parece ser a mais ajuizada na família. Três irmãs completamente diferentes, com tempos de tela também diferentes, a levarem-nos pelos bastidores de uma trama que pensávamos conhecer. É sempre de época, mas com uma mensagem intemporal. É dramático com momentos arrepiantes. E tem momentos de comédia que só funcionam em sala (pois temos vergonha de sermos os primeiros a rir sem que algum anónimo non escuro dê o exemplo). Para fechar com chave de ouro, mesmo depois dos longos créditos temos mais uma cena para nos lembrarmos do que nos esquecemos. Um projeto maravilhoso que estava para ser feito ainda antes da pandemia e só este ano ficou pronto. A espera valeu a pena. Filmes Filmes 2025 Conto de FadasfamíliaLoucuraNuno Reisversão alternativa