The Voice of Hind Rajab Nuno Reis, 17 de Dezembro de 20259 de Janeiro de 2026 Hoje vamos falar de histórias menos conhecidas e que nos tiram da zona de conforto. Podemos começar pela Cruz Vermelha. Um símbolo mundialmente conhecido que simboliza o que a Humanidade tem de melhor. Com a sua expansão para quase todo o mundo, e como estava a ser associada à cruz do cristianismo, há mais de um século surgiu uma nova representação, o Crescente Vermelho. É essa a designação e símbolo reconhecidos em 33 países muçulmanos. E, por curiosidade, existe ainda o Cristal Vermelho, o terceiro e mais genérico símbolo que não está associado a religiões. É que isto de ser um símbolo universal de bondade enquanto os confrontos religiosos são uma das grandes causas de mortalidade, é muito complicado… Janeiro de 2024. O exército israelita está a bombardear Gaza e o caos é enorme. No centro de emergência do Crescente Vermelho, chegam chamadas constantemente. Até que chega uma chamada vinda do estrangeiro. Sobre um carro que estaria a ser atacado. Após algumas chamadas, um dos operadores consegue falar com alguém. O que se vai seguir, são horas de sofrimento em que uma criança de seis anos espera que a vão buscar, o Crescente Vermelho tenta coordenar a operação de salvamento para não serem atacados pelo exército isralelita, e os indivíduos no centro desesperam. Enquanto isso, Hind apenas sobrevive e espera. Suplicando para a tirarem de lá antes de ser noite. Este ano foram feitos pelo menos três filmes sobre Hind Rajab. Sabemos destes porque foram feitos com autorização da família. É uma das histórias mais marcantes da guerra. Mas enquanto as duas curtas arranjaram uma actriz para fazer de Hind, este foi o único feito sem artifícios. Não vamos ver uma Hind. Vamos ouvir as gravações reais da sua voz para o telefone que era suposto salvá-la. A 8 minutos de distância, a 8 horas de lá chegar. O filme não é nem uma ficção fiel, nem um documentário. É uma dramatização construída em torno dos diálogos gravados. Com interpretações demasiado credíveis, por vezes interrompidas por umas frases de contextualização para nos recordar que não está a acontecer em tempo real. O destino está traçado. O elenco (todos palestinianos) é reduzido, mas faz um trabalho incrível. Enorme performance de Motaz Malhees como Omar, o interlocutor principal. Saja Kilani está soberba como Rana, a supervisora de Omar que era suposto ser menos emocional. Até Amer Hlehel como o coordenador que lida com a parte institucional e a coordenação – não se pode dar ao luxo de ser emocional – acaba por perder a paciência com a demora. Ao fim de meia hora a ver a complacência queremos que a guerra acabe imediatamente. O que está a acontecer não faz sentido. É um filme de qualidade profissional e marcante que a Tunísia faz muito bem em submeter aos Oscares como o seu nomeado, numa tentativa de Kaouther Ben Hania repetir a façanha do seu filme anterior que ficou nomeado como Melhor Documentário. Os nomes de Alfonso Cuarón, Rooney Mara e Joaquin Phoenix na produção podem ajudar com a visibilidade, mas o mais importante é recordar que em cada conflito há pessoas inocentes. É preciso dizer “basta” e começar a ver os indivíduos. Filmes Filmes 2025 GuerraHistória VerídicaNuno Reistelemóvel