Universal Nuno Reis, 3 de Dezembro de 202530 de Novembro de 2025 Perguntando a uma pessoa aleatória na rua quais as suas prioridades vitais, provavelmente esta diria internet antes de oxigénio. Mas em tempos os humanos tinham algo mais grandioso em mente. A busca pelo auto-conhecimento. Isso fez com que criassem a filosofia e se questionassem sobre o nosso propósito. E ainda que a resposta “ao sentido da vida, do universo e tudo mais” permaneça um mistério, estamos a ter progressos noutra área do connhecimento. O genoma humano e como somos feitos. A história acompanha Leo e Naomi, um casal que parte para um retiro de fm de semana nas montanhas. Descobrem que tiveram mais do que pediram quando percebem que estão completamente offline. Por uns dias, vão estar sozinhos no mundo… Até que alguém bate à porta. É quando surge Ricky, uma admiradora do trabalho de Leo que acha ter descoberto algo escondido na parte do ADN considerada “lixo”. Ele é o maior especialista nesse tema. Ela é especialista em decifrar códigos. Juntos, podem conseguir um avanço científico imprecedente. Desde que isso não exceda os cinco minutos do fim-de-semana que Naomi está disposta a ceder. Sendo a escapadinha invadida por uma rerceira pessoa, depressa se imagina que surja tensão no casal e o filme seja sobre isso. Muito pelo contrário. As interpretações são muito competentes e em minutos estamos convencidos das solidez da relação. Naomi (Rosa Robson) faz uns olhares apaixonados a Leo que qualquer um de nós gostaria de ver na vida real. E Leo (Joe Thomas) revela os seus pensamentos e sentimentos de forma inequívoca. Já Ricky (Kelley Mack), é um pouco tresloucada e inconveniente. Nada parecida com uma femme fatale que pudesse roubar o homem a alguém. Mas o seu intelecto é ímpar. Vendo para lá da loucura, impressiona. O argumento foi construído muito parecido com conversas reais. Por vezes parece perder naturalidade, mas é só porque a inteligência sai do ordinário. Seja a convicção de Ricky nos seus algoritmos, a incredulidade de Leo na utilidade do seu tema de estudo, ou a facilidade com que Naomi se imiscui na conversa para dar um sentido às estranhas conclusões tiradas, todos cumprem o seu dever. Há dois detalhes científicos errados (ou mal explicados), mas ainda assim foi bem mais credível que outros supostos filmes de base científica. É um filme que nos vai envolvendo por camadas. Enquanto eles falam de padrões, nós só vemos caos. Quando geram uma imagem clara, o seu significado é sempre vago. E mesmo com toda a informação, como bons cientistas, não querem dar respostas definitivas ou assumir. Trabalham no reino das hipóteses. É isso que funciona melhor no filme. É o que nos faz pensar no sentido da vida e no nosso propósito no universo para lá do visionamento. Se o filme fosse só com Leo e Naomi, seria um bom romance indie. Duas pessoas inteligentes de áreas diferentes que conseguem ter momentos de relaxamento e conversas profundas. Juntando Ricky, somos enviados para um novo patamar. Tem frases que atiçam a curiosidade e um timing cómico incrível. Nunca sabemos o que esperar e tanto queremos que o casal tenha o seu sossego, como queremos que explorem a descoberta por dias sem fim e nos respondam. E com a duração que tem, mantem-nos sempre curiosos sem cansar. Portanto, um filme competente, com muito coração e que faz bem aquilo a que se propunha. Uma das grandes surpresas do ano. Filmes Filmes 2025 Cabana isoladaCiênciagenéticaInvestigação cientificaNuno Reis