We Have a Ghost Nuno Reis, 28 de Fevereiro de 20239 de Setembro de 2025 Quando todos os filmes parecem o mesmo, é estranho ver algo novo. Entrei para mais um blockbuster Netflix com as expectativas bem no fundo. A história é sobre a família Presley que se muda para uma casa onde descobrem um fantasma. Não é spoiler, é o título. A obra original tinha como título “Ernest”. Esta mudança para “We Have a Ghost” ou “Temos um fantasma” – dito da mesma forma que poderiam dizer “Temos ratos” ou “Temos baratas” – é uma constatação algo incómoda, mas expectável. Em especial numa mansão velha, a precisar de obras e com um preço tão baixo que é suspeito. Tudo apontava para uma comédia familiar com toques de terror. O humor de Christopher Landon agora adaptado a um público ainda mais jovem, ou um belo filme para ver numa chuvosa tarde de fim-de-semana e esquecer em seguida. O que temos aqui foge um pouco ao que se espera e ao convencional. Sim, começa dramático como milhares de outros filmes de fantasmas. Depois ganha um pouco de comédia num subtil comentário a como diferentes gerações e personalidades reagem ao inesperado. Lentamente somos levados quase na direcção oposta. Este fantasma amnésico, mudo e com bom fundo, parte numa aventura com Kevin e a vizinha para descobrir quem foi em vida. Enquanto isso a família de Kevin enriquece com os videos (e enlouquece com as multidões) e o governo tem a missão de estudar essa estranha criatura e os seus poderes, mesmo que tenha de espezinhar os direitos dos cidadãos que o abrigam. É algo invulgar relegarem Anthony Mackie para um papel secundário, mas o filme é sobre um fantasma (David Harbour em grande), sobre o adolescente que o cativou (Jahi Di’Allo Winston a tomar a ribalta) e Jay (Isabella Russo), a vizinha metediça que adora resolver mistérios. Esta personagem podia ter sido removida sem prejuízo para a história, mas a loucura que traz encaixa bem no filme e evita cenas dramáticas consecutivas. Uma nota ainda para Jennifer Coolidge como a medium local numa pequena cena fácil de esquecer, mas que marca uma grande viragem na temática – quando Ernest passa de fenómeno do Youtube para fenómeno televisivo – e onde vamos ver quase todo o orçamento CGI do filme. Falando de siglas, o título escolhido para Portugal foca-se na CIA (personificada em Tig Notaro) que também era fácil remover sem prejuízo para a narrativa. Penso que a grande falha do filme foi precisamente em usar o governo para representar a crueldade e frieza, em oposição ao calor familiar. Isso condicionou em muito a narrativa e foi o que levou por trilhos conhecidos. Sem a CIA, apenas com o Youtube e os mistérios do passado, podia ter dado um filme completamente diferente e mais a meu gosto. É um filme que tinha muito por onde ir e optou pelo caminho mais simples para agradar aos espectadores, ainda que se tenha esforçado em deixar pistas para quem quiser pensar sobre o que se passou. Simpático, não tem demasiado terror, e tem um vilão credível. Se não fossem as duas horas (que passam a voar) seria um visionamento ocasional. Filmes Filmes 2023 NetflixNuno Reis