Women Talking Nuno Reis, 25 de Março de 202311 de Agosto de 2025 Quando usar a voz é uma arma. Sarah Polley foi uma actriz algo discreta, mas icónica nos anos 90 e 00 que se foi afastando dos ecrãs por sentir algum descontentamento com a americanização dos conteúdos em que trabalhava (é canadiana). Com o tempo acabou por se afastar completamente alegando uma decisão ética para fazer apenas filmes socialmente importantes. Quase caiu no esquecimento. Durante uns anos isso foi uma dificuldade, mas dez anos depois de ter deixado a carreira de actriz e dezasseis anos depois de realizar a sua primeira longa, apresenta-nos agora um dos filmes mais socialmente importantes da décadas. “Women Talking” é uma adaptação do livro homónimo de Miriam Toews, uma narrativa que nos embrenha na vida de um grupo de mulheres numa comunidade conservadora que acabou de expor um gigantesco trauma. De forma constante ao longo de anos, mulheres de todas as idades eram violadas durante a noite. Os culpados foram encontrados, mas serão libertados e autorizados a voltar para a colónia. Na ausência dos homens que os vão libertar, as mulheres que não aprenderam a escrever organizam um referendo com três opções. Não fazer nada. Ficar e lutar. Fugir. Este filme é sobre a sensação de, pela primeira vez, terem liberdade de usar a voz e terem uma palavra a dizer sobre a sua vida. E vamos ser expostos ao medo, à responsabilidade, à mudança que querem trazer às suas vidas. O impensável tem um prazo pois seja qual for a decisão, terão apenas 48h para se decidirem e se prepararem. O trabalho da realizadora começou no argumento, onde passa uma obra literária sobre uma longa assembleia, para algo visual e capaz de nos prender por mais de hora e meia. Sarah Polley confiou no colaborador de longa data Luc Montpellier para a fotografia que nos leva para um mundo distante, próximo do preto e branco do passado, mas que sabemos ser contemporâneo. Essa parceria gere um equilíbrio entre a assombração do que se avizinha se não fizerem nada e o medo das consequências de fazerem algo. Como se pensar numa opção aliviasse a carga emocional da outra. Com um sábio jogo de personagens intergeracionais que tem o fatalismo das anciãs, o medo das mulheres, e o riso inocente das crianças, Polley combina medo, urgência e risos. Os rostos, tanto de actrizes consagradas como de desconhecidas, são a tela em que a história é construída. Numa sociedade moderna e de mulheres emancipadas, é complicado ver a inércia desta sociedade. A justiça mais que merecida a ter de ser obtida pelas próprias mãos porque ninguém mais as ajudará. E se a obtiverem, serão condenadas por isso. E só não gritamos porque nessas reuniões tem um apontador muito peculiar. O professor foi convidado a estar presente para criar a acta desse evento. Está a registar um momento único da história da colónia. E quando se intromete, é mandado calar por não lhe dizer respeito. É uma testemunha, não um participante e terá de ficar calado. Mesmo que o que está a ouvir não faça sentido. Mesmo que signifique deixar partir a mulher que ama para um destino desconhecido e não a voltar a ver. Pedem-lhe apenas uma coisa: que se elas partirem, ele se responsabilize pela educação dos rapazes que ficam. Para que eles não se tornem em homens como os pais deles. Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Judith Ivey e muitas outras estão fenomenais, mas o rosto de Ben Whishaw é igualmente expressivo e o seu sofrimento é igualmente marcante. Faz-se história perante os seus olhos e somente pode ouvir. É mais do que um grande filme. É um filme que obriga a pensar e, espero, a mudar alguns hábitos. Filmes Filmes 2022 Nuno Reis