Worth Nuno Reis, 11 de Setembro de 202117 de Agosto de 2025 Tivemos uma fase em que vários filmes falaram sobre o 11 de Setembro. Era sobre o acidente, sobre as causas, sobre os aviões, sobre o governo, sobre os terroristas… E alguns, mesmo não sendo sobre o evento em si, passavam-se numa data indeterminada e deixavam esse soco no estômago para surpresa final, matando algum dos envolvidos nessa data e local. Brilhante, mas ainda não perdoado. Este não é como os outros filmes. Não foi feito nos meses depois para se aproveitar da curiosidade. Não foi feito a uma distância temporal respeitosa para manipular alguns factos de forma a fazer mais espectáculo. Foi feito quase 20 anos depois porque já se podia olhar para trás e encerrar o capítulo. Pelo menos parte dele. Logo no título temos uma pergunta: quanto vale uma vida? Não tem resposta fácil. Pois é isso que perguntam quando os torres caem. Quanto devemos pagar e a quem pelas vidas perdidas? Ken Feinberg era um advogado de sucesso. E como todos os americanos, sentiu que tinha de fazer algo pelo seu país. Tal como no dia uns se meteram no edifício em chamas para tentar salvar quem pudessem – muitos não voltando a sair – nos dias e meses seguintes o fenómeno cresceu. Enquanto uns se alistaram para combater o inimigo, outros ofereceram-se para a limpeza e reconstrução do ground zero, e outros voluntariaram-se para apoio às vítimas. Num país que não está habituado a ter a carnificina perto de casa, foi uma causa de união só comparável a Pearl Harbor. Feinberg estava a aceitar um trabalho mais que impossível. Pediram-lhe uma fórmula para determinar as indemnizações. Acabou a ouvir 7000 familiares para identificar as particularidades de cada pessoa, cada familia, o impacto de cada perda. Quando pensamos em advogado, não pensamos em empatia ou em matemática. Diria que o oposto disso alimenta todas as anedotas sobre a classe. E terem entregue o papel a Michael Keaton fazia pensar que fossem mostrar o lado negro e burocrático dessas decisões. Mas Feinberg vai mostrar ser diferente. Que mesmo tendo uma missão impossível pela frente, lutará pelas pessoas contra quem for. É um filme com diferentes camadas. A parte económica apesar do nome é interessante. Uma indemnização deste tamanho arruinaria as companhias aéreas e, por arrasto, toda a economia nacional e depois mundial. Algo tem de ser feito para impedir o efeito dominó. E simplesmente adiar também não funciona. As pessoas precisam do dinheiro o mais depressa possível e uma decisão judicial pode demorar dez a vinte anos. Depois tem a parte humana e esse é o enorme trunfo do filme. Uma série de depoimentos quase documentais a falar de cada indivíduo. Serão poucos casos, talvez menos de vinte, mas o impacto é real. Pessoas perdidas que deixam outros para trás. Uns eram heróis, outros eram uns sacanas, mas todos eram importantes para alguém. Grande parte do filme vemos Keaton sozinho com os seus pensamentos, mas quando tem lugar uma conversa, ficamos emocionalmente ligados àquelas pessoas. Podem ser estranhos, mas foram vítimas colaterais de uma guerra. Estão a sofrer e fazem-nos sofrer com eles. Era muito fácil o filme ficar manipulador e sentimentalista, mas mantém esse elemento na dose certa. Sempre presente no pensamento, só com a ocasional surpresa ou ligação entre estranhos, mas muito eficaz. A parte política está na dose certa. A burocracia é um empecilho. Os abutres a tentar sabotar um acordo são facilmente odiados, ainda que se perceba a sua causa. E a prioridade dos legisladores é nas regras para cumprir, mas para cada indivíduo é um momento horrível da sua vida. Não querem saber de prazos, fórmulas ou regras. Só queriam reverter a tragédia. E os políticos querem fazer de conta que nada disso aconteceu, seguir em frente e ainda conseguir a reeleição. E do lado oposto está um enorme Stanley Tucci num dos papéis mais difíceis que já fez. Ele é apenas um sobrevivente, mas o único que mantém a cabeça fria e o espírito crítico. É o cérebro dos herdeiros. A única pessoa que precisam de convencer, mas também o mais exigente. Discreto e sublime. É um filme que puxa à lágrima e nos ajuda a compreender a componente humana de cada tragédia. Para ser visto e revisto sempre que nos esquecermos que as pessoas à nossa volta são também humanas. Devemos fazer o possível para as ajudar, mesmo que não possamos conhecer as histórias individuais. É isso que faz uma sociedade subsistir nos bons e em especial nos piores momentos. Filmes Filmes 2021 Nuno Reis