YANUNI Nuno Reis, 24 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 Quando o nosso povo Xipaia lutou, lutou uma grande batalha. E vencemos. Por um momento a floresta ficou muito silenciosa. E então… um único pássaro cantou. E se tornou um símbolo de vitória, felicidade, poder, e mudança. Era Yanuni. Richard Ladkani tem uma carreira muito interessante no documentário. Já fez um trabalho para a National Geographic sobre carteis de droga e máfias que quase extinguiram uma baleia na csota das California, e para a Netflix sobre a tráfico de marfim. Estes e outros com produção de Leonardo diCaprio, nome que abre muitas portas. O seu mais recente lançamento é de uma causa mais próxima de nós. Fala dos povos indígenas da Amazónia e da sua luta contra brasileiros pelo direito a existir, às suas terras, e ao seu modo de vida. Tudo isso centrado em duas pessoas. Hugo Loss, agente da IBAMA (agência brasileira de proteção ambiental) e a sua esposa, Juma Xipaia, uma líder em todos os sentidos da palavra. Juma tornou-se a primeira mulher a ser chefe da tribo. Foi também uma líder de resistência numa série de manifestações que a tornaram num alvo a abater. E finalmente, foi para o governo para ser parte da mudança e inspirar as gerações futuras. O filme tem um toque pessoal muito forte. A protagonista é também produtora, pelo que teve uma palavra a dizer sobre a história a contar e as cenas a mostrar. Como havia muitas cenas, deu para fazer um trabalho muito completo combinando a sua vida pessoal com a história brasileira e o clima da Terra. E por o processo ter sido tão longo e intenso, há muita proximidade. Durante uns anos fazemos parte da intimidade familiar. Devia ser obrigatório ver “Yanuni”. O nosso planeta está em crises simultâneas. Uma ambiental e outra de valores. Há demasiados países fechados em si mesmos e pessoas sem consciência que existem mais uns milhares de milhões de indivíduos. Isso é levado ao extremo no Brasil onde garimpeiros destroem a Amazónia sem consideração por quem lá vive. Quando os encontram, são os proprietários da terra quem fica a perder pderante os invasores. Começa como o documentário convencional. Quem ela é, o que faz, como o país está. Os problemas de se viver em simbiose com a natureza, numa época em que o cimento faz esquecer de onde viemos. E a crise de valores na política que veio piorar uma situação já terrível. Até que uma eleição traz mudança. Não precisam mais de viver com medo. Podem fazer parte da decisão e lutar pela floresta mãe. Isso é como as lendas nascem… mas são apenas os primeiros 40 minutos de filme. A partir daí começa a parte mais importante que é usar o poder para corrigir tudo. Juma tem a representação e o diálogo a seu cargo. Hugo recuperou o seu trabalho de perseguir e destruir os acampamentos ilegais que destroem a Amazónia. As missões afastam-nos, mas o objectivo une-os. Visualmente temos de tudo. Planos aérios de extrema beleza e destruição. Planos próximos entre manifestantes quando o gás intoxica e as balas voam rasantes. Viagens na linha da frente em lanchas rápidas em perseguição de criminosos. Tanto podemos comtemplar o que estamos a perder como suspirar ao ver que o processo de destruição foi interrompido. Talvez em mil anos o planeta esteja recuperado. E a cada balsa afundada e avião queimado, junta-se uma exploração ainda maior e mais tóxica, num trabalho ingrato e infinito. É aí que se percebe que temos de ser mais. Temos de lutar todos contra isso, seja como for. “Yanuni” é um documentário invulgar. Tem tanto material que parece ter sido recriado de propósito. A fotografia impecável e o excelente trabalho sonoro para isso contribuem muito. Ficou um pouco longo, mas mal se nota por haver a tal divisão entre a parte “fácil” da luta e a verdadeira missão. E ainda temos um bónus da vida pessoal para alegrar. Mas é urgente ver, reconhecer que é grave e admitir que temos um problema ímpar em mãos. (filme está disponível no MUBI) Filmes Filmes 2025 AmbienteBrasilFlorestaÍndiosNuno ReisPolítica