Vicky Cristina Barcelona, por Ricardo Clara O abandono da sua Nova Iorque natal, fuga completada pelo atravessar do AtlΓ’ntico, levou Woody Allen a tentar novas formas de abordar o seu cinema, procurando na Europa respostas para um enorme cepticismo que a sua obra sempre gerou na crΓtica norte-americana. JΓ‘ sabemos, atΓ© de repetir exaustivamente, que a relaΓ§Γ£o de Allen com a sua cidade gera uma carga tremenda nas suas obras. Mas quando viaja para Londres e realiza o extraordinΓ‘rio “Match Point” (2005), ficamos com bastante certeza de que nΓ£o temos um realizador preso a uma cidade. SΓ³ que, ainda que convincente, “Scoop” (2006) e muito menos “Cassandra’s Dream” (2007) colocam pontos de interrogaΓ§Γ£o no relaΓ§Γ£o que Allen estabeleceu com o seu cinema. DaΓ, atΓ© partir para Barcelona, foi uma questΓ£o de oportunidade. Oportunidade porque, e convΓ©m nΓ£o escamotear isso, foi uma produtora espanhola, seguida por importantes telefonemas de PenΓ©lope Cruz e Javier Bardem a incentivar, que convence o realizador a escrever um argumento que se adaptasse Γ cidade. Allen opta por, introduzindo novos vectores, adaptar uma outra histΓ³ria por si escrita, para levar Scarlett Johansson e Rebecca Hall a visitar a estrondosa cidade espanhola. O resultado nΓ£o tem o brilhantismo de outras obras. Talvez por estar cada vez mais afastado do seu habitat, temos um cinema menos conseguido naquela arte tΓ£o especial de personificar a cidade onde estΓ‘ a filmar, acrescentando-se ao elenco mais um personagem, com uma forΓ§a carregadamente telΓΊrica. Γ porque, em “Vicky Cristina Barcelona“, esta cidade que dΓ‘ o nome ao tΓtulo nunca consegue ser mostrada sem ser pelo ponto de vista do mero turista. Se Cristina (Johansson) Γ© uma libertina artista em busca da sua vocaΓ§Γ£o e de um amor que a complete, Vicky (Hall) Γ© o seu oposto. Ambas decidem viajar para Barcelona, e hospedarem-se na casa de uns parentes desta ΓΊltima, ocupando os meses de Julho e Agosto nos estudos da lΓngua catalΓ£ (etapa final da formaΓ§Γ£o de Vicky) e na procura de um novo rumo da vida de Cristina, ela que foi mais uma vez enganada pelo amor. Numa festa, como tantas outras, Cristina presta atenΓ§Γ£o a um homem de vermelho (cor que jΓ‘ encerra em si um prenΓΊncio da narrativa), que vem a saber tratar-se de Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor que muito brado deu meses antes, por ter sido notΓcia a sua tentativa de assassinar a mulher Maria Elena (PenΓ©lope Cruz), ou talvez ter sido alvo de uma tentativa de homicΓdio. Como bom boato que Γ©, falta este pequeno pormenor Γ histΓ³ria. E foi ao jantar que, por coincidΓͺncia, a atenta americana se apercebe estar no mesmo restaurante que Juan Antonio. Este, por sua vez, encarnando a hiperbolizaΓ§Γ£o do macho latino que Γ©, convida-as para um fim de semana em Oviedo. “Life is short. Life is dull. Life is full of pain. And this is the chance for something different“. Elas, claro estΓ‘, sucumbem ao pedido. Numa atribulada viagem de aviΓ£o, onde o pintor tambΓ©m Γ© piloto (e esta viagem Γ© novo prenΓΊncio para o que mais Γ frente iriamos assistir), aterram naquela cidade espanhola. Se Vicky nΓ£o estΓ‘ nada interessada no que este D. Juan tem para oferecer (atΓ© porque estΓ‘ noiva de Doug – um pastelΓ£o Chris Messina), Cristina deixa-se atrair para o quarto do catalΓ£o (“I’ll go to your room, but you’ll have to seduce me“), mas a sua ΓΊlcera (um dos anticlimax que povoam a fita) evitam a consumaΓ§Γ£o da luxΓΊria. Tal evento leva Cristina para um repouso forΓ§ado, e atira Vicky, que conhece o lado mais sensΓvel de Juan Antonio, para os seus braΓ§os, depois de um concerto de guitarra espanhola. Debalde, a recuperaΓ§Γ£o da loira leva a que ela se mude para casa do artista, ficando a amiga presa Γ consumaΓ§Γ£o de um casamento que nΓ£o deseja (e que acaba por celebrar na cidade condal, com a (in)esperada vista de Doug) e refΓ©m de um amor que nΓ£o pode alcanΓ§ar. Surge entΓ£o na vida de Antonio e Cristina a ex-mulher do primeiro. Maria Elena, vΓtima de uma frustrada tentativa de suicΓdio, enceta um complexo menage com os dois companheiros de casa, ficando tutora da nova paixΓ£o de Johansson pela fotografia, e reavivando a melhor criatividade que Bardem exala. Seria, claro estΓ‘, o princΓpio do fim. Vicky e Cristina abandonam Barcelona como chegaram. Manhattan faz falta a Woody Allen. Barcelona Γ©-nos mostrada como qualquer um de nΓ³s a costuma ver quando tem a oportunidade de lΓ‘ ir. Turista de mΓ‘quina fotogrΓ‘fica na mΓ£o, visita o Parc GΓΌell, a Sagrada Familia, a Casa BatllΓ³, e todos as outras obras brilhantemente deixadas por Gaudi. SΓ³ que, com Allen, a cidade condal nΓ£o pode ser (sΓ³) isso. Este nΓ£o concretiza a paisagem urbana (que nos espanta com aquelas cores alaranjadas e amareladas) numa personagem definitiva. E este ponto, especialmente porque estamos a falar deste realizador, nΓ£o sendo aproveitado como costuma ser, desilude. Toda a mise en scene estΓ‘ conseguida como Allen sempre a desenha: completa, diΓ‘logos impecavelmente esculpidos, personagens pensadas e dirigidas ao promenor. Mas se Hall (tremenda) e Bardem levam nota positiva na interpretaΓ§Γ£o, Johansson deixa a desejar, e comeΓ§a a ser um corpo estranho nesta filmografia. JΓ‘ PenΓ©lope Cruz (nomeada para Γscar para Melhor Actriz Principal) Γ© uma histΓ³ria Γ parte. Cruz diverte-se como hΓ‘ muito nΓ£o se via, explosiva e mediterrΓ’nica, maniaco-depressiva e armada, corta a relaΓ§Γ£o de Cristina e Juan Antonio a meias, aproveitando para si o que cada um deles tem para dar. Acrescenta novos elementos Γ quela relaΓ§Γ£o, com o atractivo de introduzir deliciosos momentos como sΓ£o os das discussΓ΅es paternais em castelhano, Γ margem da compreensΓ£o da norte-americana (o que, curiosamente, leva a questionar onde raio Γ© que se meteu o catalΓ£o, mote da viagem), e especialmente a cena do piquenique das montanhas, num travelling perfeito que acompanha uma atenciosa Cristina Γ s bicicletas, e regressa com uma Cristina ultrapassada pela sedutora Maria Elena. AliΓ‘s, a ex-mulher acaba por impregnar todo o desenrolar da narrativa, estando presente em todos os momentos desde a sua (tardia) apariΓ§Γ£o, de um simples criar de um quadro, atΓ© a um diΓ‘logo onde se banaliza, Γ volta da mesa (com um intenso campo contra-campo) o cair dos lΓ‘bios de Johansson em Cruz. Γ, claro estΓ‘, uma obra muito competente de Allen. Leva demasiadas vezes a cΓ’mara para o folheto turΓstico – Nova Iorque estΓ‘ definitivamente a fazer falta ao realizador. Mas monta um peΓ§a de trato light e descomplexado, que nΓ£o pode deixar de agradar. Uma palavra ainda para a narraΓ§Γ£o de Christopher Evan Welch: perfeita. Vicky Cristina Barcelona (2008) M/12 96 min - Drama, Romance - 15/08/2008 Your rating: Two girlfriends on a summer holiday in Spain become enamored with the same painter, unaware that his ex-wife, with whom he has a tempestuous relationship, is about to re-enter the picture. Director: Woody Allen Stars: Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Javier Bardem, PenΓ©lope Cruz, Christopher Evan Welch, Chris Messina, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Julio PerillΓ‘n, Ricard Salom, Maurice Sonnenberg, Manel BarcelΓ³, Josep Maria DomΓ¨nech, Emilio de Benito, Jaume MontanΓ©, Lloll Bertran, Joel Joan, Silvia SabatΓ©, Pablo Schreiber, Carrie Preston, Zak Orth, Abel Folk Photos No images were imported for this movie. Storyline Two girlfriends on a summer holiday in Spain become enamored with the same painter, unaware that his ex-wife, with whom he has a tempestuous relationship, is about to re-enter the picture. Collections: Woody Allen Tagline: Life is the ultimate work of art. Genres: Drama, Romance Details Official Website: — Country: Spain, United States of America Language: Spanish, English Release Date: 15/08/2008 Box Office Budget: $15.000.000 Revenue: $96.409.830 Company Credits Production Companies: Gravier Productions, Mediapro, Atresmedia, Dumaine Productions Technical Specs Runtime: 1 h 36 min Filmes 2008 Filmes AmizadeViagemMulheresRicardo Clara
Pessoalmente acho que Γ© um dos piores filmes do Allen da ultima decada. Perde-se demasiado no espaΓ§o e nΓ£o consegue criar uma narrativa consistente. Nota-se que nΓ£o se move com seguranΓ§a por Barcelona ou Oviedo e dΓ‘ demasiada voltas a uma relaΓ§Γ£o que nΓ£o convence desde o primeiro minuto. Muitos furos abaixo das comΓ©dias do genero que foi fazendo en NY e que tinham muito mais glamour e engenho. E continua a provar-se de que por muito que tente, Scarlett Johansson teima em provar a cada filme que nΓ£o melhora como actriz. Um abraΓ§o Responder
NΓ£o vou tΓ£o longe, Miguel, de o qualificar como um dos piores Allen da ΓΊltima dΓ©cada, mas concordo que hΓ‘ um enorme declΓnio na sua obra desde o abandono de NY.E sim, Johansson tambΓ©m nΓ£o me estΓ‘ a convencer… Responder