Au Delà des Murs Nuno Reis, 18 de Setembro de 201615 de Dezembro de 2025 Com estreia marcada para daqui a dias em França e Alemanha, a mini-série “Au Delá des Murs” foi o elemento estranho nesta edição do MOTELx. Não é que o formato televisivo seja algo novo no festival (decerto se recordam da saudável maratona “The Walking Dead”) só tem sido muito raro. Mas claro que tudo depende do conteúdo e esta mini-série com um total de 140 minutos podia encaixar perfeitamente no horário de uma sessão normal. Apesar do no arranque a trama se assemelhar a uma qualquer série dramática, o elenco principal é muito reduzido com apenas quatro actores. Isso porque também a narrativa depressa fica confinada dentro de quatro paredes. Ou melhor, dentro das paredes. Explicando: esta é a história de Lisa, uma terapeuta da fala muito recatada que chega a mentir sobre a sua vida pessoal para se esquivar a outras pessoas. A misteriosa casa do outro lado da rua dá nas vistas por não se enquadrar na arquitectura, mas nada mais. Até ao dia em que Lisa lá vai entrar e a sua vida mudará para sempre. Um buraco na parede leva-a para um corredor secreto, depois uma sala secreta, e o mistério vai crescendo até que descobre todo um labiríntico mundo mágico escondido com os seus habitantes. Incapaz de encontrar o caminho de volta, Lisa terá de descobrir uma saída ou morrer tentando. Mas como se foge a um mundo onde os pecados são perdoados e os sonhos se tornam realidade Que se desengane quem procura algo como Narnia pois esta história não é nada juvenil e cada episódio é num mundo diferente do que vimos antes, ainda que as ameaças nunca fiquem completamente para trás. O formato série é o ideal para esta narrativa que, ao melhor estilo de Sherazade, termina cada episódio com um cliffhanger que nos faz querer voltar (ainda que esteja previsto serem exibidos de forma consecutiva na mesma noite, tal como foi feito no festival). E ser mini também se adequa pois facilmente cansa e não teria história para se acompanhar sequer seis episódios. O canal Arte soube explorar bem o potencial do mistério da porta vermelha e tem toda uma experiência online que permite visualizar o primeiro episódio. Realizada por Hervé Rasmar que co-escreveu com Sylvie Chanteux (“Plus Belle la Vie”, “Un Village Français”) e Marc Herpoux (“Signature”, “Les Témoins”), tudo gente da televisão, “Au Delà des Murs” é uma série mais cinematográfica do que se esperaria. Elementos como fotografia e banda sonora não desiludem em sala grande e são importantes para a construção da atmosfera de perigo. As criaturas que ao início surpreendem vão perdendo importância, mas são visualmente imponentes e misteriosas q.b. até ao fim, incluindo as de forma humana. Tirando a breve participação de Geraldine Chaplin num papel menor, é um elenco relativamente desconhecido a nível internacional, liderado por Veerle Baetens (“Broken Circle Breakdown”) onde apenas Françlis Deblock e Lila-Rose Gilberti fazem o pleno. São todos capazes de nos presentearem com personagens improváveis, mas convincentes, e em pouco tempo estamos interessados, quase cativados, no que vai acontecer a Lisa naquele estranho mundo. Neste formato de três episódios tem o tamanho ideal para explorar toda a potencialidade do conceito sem perder tempo em divagações. Termina no momento certo, arrancando para o desfecho mesmo quando começava a entediar. Será certamente uma experiência diferente para horário nobre. Séries TV HerançaMOTELx 2016Nuno Reissonhos