Capitão Falcão Com estreia a 23 de Abril, uma quinta-feira, como mandam as regras da exibição cinematográfica em Portugal, “Capitão Falcão” apresentou-se ao mundo o mais próximo possível do 25 de Abril. A grande campanha que antecedeu o filme garantia que o fervor nacionalista do feriado seria capitalizado numa grande afluência às salas para ver o herói do Estado Novo. Contra-senso? Não, humor. Os portugueses festejam o 25 de Abril indo ver a irónica obra onde se elogia e protege Salazar. Nada mais adequado para a reflexão patriótica. A chegada do Capitão Falcão ao grande público estava difícil. Quando surgiu o episódio-piloto da série, teve tal sucesso que seria uma questão de dias até ouvirmos sobre o contrato feito. Mas as dias foram passando, e os meses, e as televisões não pareciam lutar pela série portuguesa com mais potencial desde “Duarte e Companhia“. Um acordo esteve quase a ser feito, mas devido a cortes na televisão pública, ficou tudo em águas do tradicional bacalhau. Não havendo canais interessados, só havia duas opções. Ou desistir, ou mudar o formato. E enquanto houvesse um português à espera de ver o Capitão, não podiam desistir. A solução passou por mudar para filme uma estrutura pensada para a televisão. O risco era bem conhecido. A comédia que funciona bem quando dispersa no tempo, pode ser cansativa concentrada numa longa-metragem. Mas os Indivídeos não iam dessitir com base num receio infundado. Se não iam mudar o panorama televisivo nacional, iam mostrar como se faz filmes de super-heróis sem recursos. Se olharmos para Espanha, uma pujante indústria cinematográfica aqui mesmo ao lado, o seu primeiro filme de super-heróis nacionais data de 2013. Podiamos ter ganho essa corrida. Se ainda for precisa sinopse, “Capitão Falcão” é sobre essa figura patriótica que zela pela segurança de Portugal e do Presidente do Conselho de Ministros na conturbada década de 1960. O nosso país resistia orgulhosamente só às mais diversas ameaças exteriores, como comunistas, feministas, artistas e outros seres igualmente perigosos. Mas uma ameaça avança clandestinamente e o próprio Salazar está em perigo. Só o mais patriota dos militares portugueses, o incrível Capitão Falcão, e o seu aprendiz Puto Perdiz, podem eliminar os perigos e repôr a normalidade do nosso próspero país. Brincar dizendo bem da ditadura é perigoso. Só um público bem informado consegue discernir que, apesar de serem ditas muitas verdades sobre prosperidade, o problema está em tudo o que não foi dito. A ignorância selectiva do Capitão e da nação é parte da anedota. Como o filme é hipérbólico em tudo, é óbvio que não defende o regime, nem insulta as mulheres ou as opções políticas de cada um. Na verdade, ao mostrar quão errado está o Capitão, acaba por apoiar todas as causas a que ele se opõe. Quem tiver visto o episódio piloto (com o qual me deparei duas vezes, mas que tem sido muito bem protegido) reconhecerá uma parte das cenas. Penso que quem viu o piloto é desde então um acérrimo defensor da personagem e é com bom grado que revê essa parte, tal como decerto reveria o episódio quando fosse emitido. Do piloto para o filme, muito mudou. O tom ficou mais soturno, a relação entre o Capitão e o puto parece mais distante. Esta visão mais negra equilibra o excesso de comédia que o episódio tinha se fosse tornado numa longa. Foi uma jogada inteligente, ainda que arriscada. Para quem não viu o piloto, parece natural que o filme se centre quase exclusivamente no protagonista. Por entre momentos bons e menos bons, a entrada do Capitão na armadilha vai tendo lugar. As piadas com referências históricas e culturais são dispersas e integradas com a trama. E finalmente, a acção pura e dura volta a ser o centro de tudo. Com um twist inesperado, um final corajoso, e ainda uma cena após os créditos ao melhor estilo americano, “Capitão Falcão” cumpre tudo aquilo a que se propunha e mais. Dá entretenimento, o overacting está no ponto, e faz qualquer um sentir imenso orgulho em ser português. Venham muito mais Capitães Falcões que é disso que o país precisa para avançar. The Portuguese Falcon (2015) M/12 106 min - Comedy, Action - 23/04/2015 Your rating: Uma sátira à paranoia anticomunista nos dias da ditadura fascista em Portugal. A série acompanha as aventuras do "super-herói lusitano", o ultra-patriótico Capitão Falcão, um homem que segue as ordens diretas de António de Oliveira Salazar na luta contra a "ameaça vermelha". Director: João Leitão Stars: Gonçalo Waddington, David Chan Cordeiro, Matamba Joaquim, José Pinto, Miguel Guilherme, Rui Mendes, Carla Maciel, Pêpê Rapazote, Miguel Frazão, Nuno Lopes, Bruno Nogueira, António Durães, Miguel Borges, Manuel João Vieira, Ricardo Carriço, André Pardal, Luís Vicente, Tiago Rodrigues Photos No images were imported for this movie. Storyline Uma sátira à paranoia anticomunista nos dias da ditadura fascista em Portugal. A série acompanha as aventuras do "super-herói lusitano", o ultra-patriótico Capitão Falcão, um homem que segue as ordens diretas de António de Oliveira Salazar na luta contra a "ameaça vermelha". Collections: João Leitão Tagline: The first portuguese super-hero! Genres: Comedy, Action Details Official Website: — Country: Portugal Language: Portuguese Release Date: 23/04/2015 Box Office Company Credits Production Companies: Individeos Technical Specs Runtime: 1 h 46 min Filmes 2015 Filmes Nuno ReisPIDEPatriotismoDitadurafascismo25 de Abrilsuper-heróis