Entrevista ao realizador Lucca Vieira (The Midway Point) Nuno Reis, 22 de Maio de 202619 de Maio de 2026 Uma das decisões mais claras do realizador foi a de não transformar The Midway Point num filme explicativo sobre autismo. “Não se fala, não se diz a palavra autismo no filme em si, nem no roteiro”, afirma. Em vez disso, preferiu colocar o público dentro da perspetiva do protagonista, Jake, construindo uma experiência “visceral e muito complexa”. A intenção nunca foi reduzir a personagem à sua condição, mas mostrá-la como alguém definido também pelos seus interesses, paixões e contradições. Essa abordagem estende-se às relações que rodeiam Jake. A mãe parece compreender mais do que verbaliza, a psicóloga provavelmente percebe o que se passa e as restantes personagens sentem que existe algo de diferente nele. Ainda assim, Vieira prefere trabalhar a questão através da emoção e não da explicação. “Eu queria que fosse, para a audiência, uma experiência visceral e muito mais do sentimento e nem tanto dos fatos.” O efeito é claro: o filme evita fechar-se numa leitura clínica e ganha uma dimensão mais universal. Jake é um adolescente em crise de ansiedade, confrontado com isolamento, alienação e dificuldade de ligação ao outro — uma experiência facilmente reconhecível por muitos jovens no período pós-pandemia. Essa preocupação liga-se diretamente à forma como Vieira olha para a juventude contemporânea. Para o realizador, há algo de particularmente importante em fazer filmes sobre adolescentes enquanto ainda pertence, em parte, a esse universo. “Muitas das referências que eu adicionei para o roteiro são referências atuais”, explica, criticando a tendência de alguns filmes juvenis realizados por autores mais velhos soarem artificiais ou desligados da realidade da Geração Z. O seu objetivo passa por retratar “temas atuais, do mundo atual, da Geração Z”, refletindo a ansiedade social e o caos emocional que marcam essa experiência geracional. Mais do que representar personagens, Vieira procura fazer o público sentir aquilo que elas sentem. “Queria fazer um filme sobre a experiência humana”, afirma, aproximando o drama do protagonista de uma vivência que ultrapassa largamente o contexto americano. Pages: 1 2 3 4 Entrevistas adolescentes